Quando uma das maiores consultoras do mundo muda de rumo, é melhor prestar atenção
No início de 2026, a Savills, uma das cinco maiores consultoras imobiliárias do planeta, anunciou uma reestruturação estratégica de toda a sua operação na Tailândia. Não é um comunicado de rotina: é um sinal de alerta para todo o setor residencial, que está a arrefecer de forma visível.
Para quem vive em Portugal e tem vindo a acompanhar o boom imobiliário tailandês dos últimos anos, isto não é motivo de pânico, mas é definitivamente motivo para rever a estratégia. Ficou para trás a era de comprar 'a qualquer andar, em qualquer torre'. O que conta agora é decidir com dados concretos na mão, não com entusiasmo.
Resposta direta: o mercado residencial tailandês não está a colapsar em 2026, mas sim a corrigir de forma concentrada no segmento de massas de Banguecoque, com o crédito hipotecário a cair cerca de 12% e vários promotores a aplicar descontos de 15-20% em unidades por vender. Phuket, Samui e o segmento premium mantêm-se resilientes, sustentados pela procura turística e por compradores estrangeiros com capital próprio.
Onde dói mais: o segmento de massas de Banguecoque
A travagem atinge sobretudo os apartamentos de Banguecoque com preço até 3 milhões de baht. Segundo o Banco da Tailândia, o volume de crédito hipotecário caiu 12% homólogos no quarto trimestre de 2025. Os grandes promotores já reagiram: adiam o lançamento de novos projetos, oferecem descontos de 15-20% em unidades ainda por vender e reorientam as vendas para compradores que pagam a pronto, incluindo estrangeiros.
A isto soma-se um endurecimento da fiscalização às chamadas estruturas 'nominee', usadas por alguns estrangeiros para contornar o limite legal de 49% de propriedade estrangeira através de empresas com 51% de capital tailandês e 49% estrangeiro. Segundo o Bangkok Post, cerca de 33 moradias de luxo avaliadas em 1,27 mil milhões de baht em zonas de Banguecoque como Pattanakarn e Krungthep Kreetha estão atualmente sob investigação. Esta operação está a atrasar transações de moradias em destinos turísticos como Phuket e Koh Samui, uma vez que os compradores demoram mais tempo a estruturar negócios com segurança jurídica.
Os números que um comprador português deve guardar
- A Savills está entre as cinco maiores consultoras imobiliárias do mundo, com escritórios em mais de 70 países; a sua reorientação estratégica na Tailândia reflete uma mudança sistémica, não um problema isolado
- Os novos lançamentos de apartamentos em Banguecoque caíram uma estimativa de 25-30% no primeiro trimestre de 2026 face ao mesmo período de 2025
- As taxas de juro hipotecário na Tailândia rondam os 6,5-7% ao ano, o que trava fortemente a procura dos compradores locais
- Os compradores estrangeiros representam até 40% das vendas em projetos premium de Banguecoque e até 60% em Phuket, segundo a CBRE Thailand
- O rendimento médio de arrendamento em apartamentos de Banguecoque situa-se em 4-5% ao ano, enquanto unidades geridas sob marcas hoteleiras em Phuket rendem 6-8%
- A Lei do Condomínio tailandesa continua a limitar a propriedade estrangeira a 49% da área total de um projeto
- O baht tailandês desvalorizou cerca de 5% face ao dólar americano nos últimos 12 meses, tornando a entrada mais barata para compradores estrangeiros
- As autoridades investigam estruturas de acionistas 'nominee' usadas para contornar os limites de propriedade, com 33 imóveis de luxo avaliados em 1,27 mil milhões de baht sob análise em Banguecoque, segundo o Bangkok Post
Porque é que isto interessa a quem quer comprar em Phuket
Quando as grandes consultoras mudam de estratégia, os promotores seguem-nas. Já se nota uma reorientação clara: em vez de construir mais um estúdio genérico de massas, as empresas investem em formatos de maior valor, residências geridas profissionalmente, conceitos de co-living e modelos híbridos que juntam residência e hotel. Para quem investe a partir de Portugal, isto significa produtos novos a chegar ao mercado, com potencial de retorno mais interessante do que o apartamento-padrão de há cinco anos.
Há também uma tendência geográfica clara: o capital está a sair de uma Banguecoque central sobressaturada em direção aos destinos de resort. Phuket continua a ser a escolha favorita: a ilha registou um aumento de 18% nas chegadas de turistas em 2025, segundo a Autoridade de Turismo da Tailândia (TAT), o que continua a sustentar a procura por arrendamento. Samui e a costa leste (Pattaya, Rayong) também atraem interesse graças a novos projetos de infraestrutura.
Os compradores estrangeiros, aliás, são cada vez mais apontados como um amortecedor da quebra geral do mercado. Vários relatos do setor indicam que o mercado imobiliário tailandês caminha para um quarto ano consecutivo de queda, com compradores internacionais, sobretudo em Phuket, a ajudar a compensar a procura local mais fraca, à medida que os promotores reforçam os canais de venda dirigidos ao estrangeiro.
O fator câmbio: o baht mais fraco joga a favor de quem paga em euros
Um baht mais desvalorizado cria um desconto natural para quem converte euros ou dólares. Combinado com os descontos dos promotores, a poupança total pode chegar a 20-25% face aos preços máximos praticados em 2024. Para quem vinha adiando a compra por causa dos preços, este é provavelmente o melhor enquadramento cambial e negocial dos últimos anos.
Os riscos que não deve ignorar
A travagem também traz riscos. Promotores mais pequenos, com financiamento mais frágil, podem sofrer atrasos de construção ou mesmo ver projetos congelados. Alguns já estão a vender bancos de terreno e projetos com aprovação ambiental (EIA) a promotores maiores e mais capitalizados apenas para preservar liquidez, uma tendência já reportada em todo o setor em meados de 2026. Antes de assinar qualquer contrato, o investidor deve verificar rigorosamente a saúde financeira do promotor, confirmar a aprovação da Avaliação de Impacto Ambiental (EIA) e analisar o histórico de projetos já entregues.
Fonte: Bangkok Post
Perguntas frequentes
O mercado imobiliário da Tailândia está a colapsar em 2026?
Não. Trata-se de uma desaceleração e correção concentrada em segmentos específicos, não de um colapso generalizado. O segmento de massas de Banguecoque está estagnado, enquanto o imobiliário de resort e o segmento premium continuam a ter bom desempenho. É uma correção cíclica, não um colapso do mercado.
É boa altura para comprar imóvel na Tailândia?
Para quem compra a pronto pagamento, sim. Os promotores estão a oferecer descontos reais, o baht desvalorizou e há menos concorrência entre compradores. O essencial é escolher bem o projeto e a localização, algo em que uma equipa especializada como a Imóveis na Tailândia pode ajudar a evitar erros caros.
Quais as zonas da Tailândia mais resistentes a esta desaceleração?
Phuket (sobretudo a costa oeste, em Bang Tao, Layan e Kamala), o centro de Banguecoque (Sukhumvit e Silom, no segmento acima dos 150.000 baht por metro quadrado) e Samui mostram a maior resiliência, sustentados pela procura constante de inquilinos estrangeiros.
Como afeta esta travagem os rendimentos de arrendamento?
Paradoxalmente, os rendimentos nas zonas de resort podem até subir. Preços de entrada mais baixos, combinados com rendas estáveis ou em crescimento, impulsionadas por mais chegadas de turistas, melhoram o rendimento global. Banguecoque mantém-se estável, entre 4-5% ao ano.
O que significa a mudança de estratégia da Savills para o investidor comum?
É sinal de uma mudança estrutural no mercado. Os grandes players estão a passar de vendas de massa para consultoria, gestão de ativos e serviços a investidores institucionais. Para compradores privados, isto significa que a era da especulação com pré-venda ('flipping') está a terminar; o foco deve passar a ser o rendimento real de arrendamento.
Quais os riscos de comprar num mercado em desaceleração?
Os principais riscos são atrasos de construção em promotores financeiramente frágeis, menor liquidez de revenda nos próximos 2-3 anos e um possível aperto adicional da política de crédito do Banco da Tailândia.
Como posso verificar a fiabilidade de um promotor tailandês?
Analise o histórico de projetos já concluídos, confirme a aprovação EIA e verifique o nível de endividamento da empresa através de divulgações públicas, no caso de empresas cotadas na Bolsa da Tailândia (SET). Contrate sempre um advogado independente para rever toda a documentação.
Qual o orçamento mínimo para entrar no mercado imobiliário tailandês em 2026?
Em Banguecoque, um estúdio num bom projeto começa por volta dos 3-4 milhões de baht (cerca de 85.000-115.000 dólares). Em Phuket, unidades em complexos com gestão profissional começam nos 5-6 milhões de baht. Com os descontos atuais, os preços reais podem ficar 15-20% abaixo do valor de tabela.
Um mercado mais lento não é o fim da oportunidade, é uma redistribuição dela. Quem ganhar será quem decidir com base em dados e não em emoção. A estratégia mais sensata agora é escolher promotores com histórico comprovado, apostar em localizações de resort com procura de arrendamento duradoura e entrar no mercado com um desconto que, há um ano, simplesmente não existia.
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